Turma de Agroecologia da UFPI visita o Sítio Realento e conhece experiências de cultivo na Serra da Ibiapaba
O Sítio Realento recebeu a visita da turma de Agroecologia da Universidade Federal do Piauí, de Teresina, em um dia de troca de experiências sobre cultivo, diversidade produtiva, autonomia alimentar e observação da natureza.

A conversa foi conduzida pela professora Isolda, que estimulou os alunos a conhecerem de perto os testes e aprendizados construídos ao longo dos anos na propriedade. Mais do que apresentar resultados prontos, a visita mostrou um sítio em constante observação: cada nova área plantada, cada consórcio e cada escolha de manejo se tornam parte de uma experiência prática.
Quando o sítio foi adquirido, já havia cerca de 200 plantas, entre abacateiros, limoeiros e algumas poucas frutíferas de outras espécies. A expansão aconteceu de forma gradual, justamente para que fosse possível acompanhar o comportamento de cada plantio sem perder o controle da propriedade.
A primeira etapa foi a implantação de cerca de 40 espécies diferentes de frutíferas, como um teste inicial de diversidade e agrofloresta numa área onde antes tinha apenas maracujá. Depois vieram novas áreas com abacateiros, em etapas sucessivas, sempre com propostas diferentes de cultivo.
Em uma área, os abacateiros foram plantados em consórcio com outras frutíferas. Em outra, todas as árvores nativas foram preservadas, trazendo resultados positivos para o desenvolvimento das plantas. Houve também experiências com o plantio em consórcio com capim, uma estratégia para aumentar a matéria orgânica e melhorar as condições de um solo arenoso, degradado e de manejo mais difícil.
Durante a visita, um dos assuntos centrais foi justamente a importância de observar a natureza antes de repetir técnicas de forma automática.
No caso da nossa cultura principal que é o abacateiro, por exemplo, o plantio exige atenção especial. Quando a muda é enterrada na mesma altura de outras frutíferas, a terra da cova pode ceder com o tempo, deixando o caule abaixo do nível do solo. Isso dificulta o desenvolvimento da planta e pode favorecer o surgimento de doenças.
A observação da germinação ajuda a compreender melhor essa necessidade: quando o caroço de abacate germina naturalmente, ele permanece sobre a superfície, enquanto a raiz procura o solo. Por isso, no sítio, uma das experiências apresentadas aos alunos foi o plantio do abacateiro sobre um pequeno biloto de terra, permitindo que a planta se acomode sem enterrar seu colo.
Também foi debatida a origem amazônica do abacateiro. Por ser uma planta adaptada ao ambiente de floresta, ele tende a responder bem quando cultivado próximo ou sob a proteção de outras árvores, especialmente nas fases iniciais de desenvolvimento.
Outro ponto importante da conversa foi a redução do uso de defensivos agrícolas. A orientação compartilhada com os alunos foi de que existem muitos métodos de controle manual quando se está ativo na propriedade. Como podar um galho atingido por um inseto e deixar ao sol, fazer podas preventivas para tirar os galhos do chão e deixar o sol entrar ao meio da árvore, conduzir a altura da árvore para facilitar a colheita, conduzir culturas que necessitem menos mão de obra e tempo.
Evitar aplicações desnecessárias protege as abelhas, reduz riscos para quem consome os alimentos e fortalece uma forma de produção mais equilibrada. A prioridade é buscar alternativas por meio da diversidade de espécies, do manejo do solo, da observação das plantas e da prevenção.
A visita também abordou a criação de galinhas caipiras da raça Canela Preta, uma raça rústica, adaptada e com menor necessidade de suplementação alimentar quando criada solta. No Sítio Realento, a maior parte da alimentação das aves é produzida na própria propriedade: o capim é triturado em forrageira e misturado a uma pequena quantidade de ração, que ajuda a tornar o alimento mais atrativo.
Esse manejo reduz custos e melhora a viabilidade da criação. Como a Canela Preta não é uma raça de alta postura — produzindo em média seis ou sete ovos por mês, enquanto uma galinha poedeira pode chegar a 25 ou 27 — a estratégia adotada é priorizar o consumo da família e a incubação para formação de novos exemplares, em vez da venda dos ovos a preços baixos.
A produção de alimentos para subsistência também foi apresentada como uma parte essencial da diversidade do sítio. Cultivos como batata-doce, mandioca, abóbora, banana e outras espécies podem não representar, sozinhos, uma atividade comercial de alto retorno, mas fazem diferença direta na economia da família e na qualidade da alimentação.
Produzir parte do que se consome é ter acesso a alimentos cuja origem, manejo e cuidados são conhecidos por quem os coloca na mesa.
Ao mesmo tempo, a diversidade abre possibilidades futuras. A propriedade reúne frutíferas pouco comuns no mercado convencional, que podem ganhar valor quando transformadas em geleias, polpas, doces e outros produtos artesanais.
Uma única árvore de araçá, por exemplo, pode produzir uma quantidade expressiva de frutos em uma safra. Quando essa produção é transformada, aquilo que parecia pouco passa a ter potencial para gerar novos produtos e novas experiências para quem visita o sítio.
Essa diversidade também aponta para uma possível vocação de turismo rural: um espaço onde visitantes possam conhecer diferentes cultivos, observar experiências de agrofloresta, entender a criação integrada de animais e descobrir sabores que não aparecem com frequência nas prateleiras dos supermercados.
A visita da turma de Agroecologia da UFPI reforçou o valor da troca entre universidade e campo. O conhecimento técnico, quando encontra a experiência cotidiana de quem planta, cria e observa, amplia a capacidade de pensar soluções mais adaptadas ao território.
No Sítio Realento, cada etapa continua sendo construída com uma ideia simples: plantar, cuidar, observar e aprender com o tempo. Porque a diversidade plantada hoje pode se transformar, no futuro, em alimento, renda, pesquisa, turismo e novas oportunidades para a agricultura familiar.
